Escrever contra o consenso, sugerindo que o dissenso deve ser visto com olhos tolerantes, é uma tarefa complicada, quase uma missão suicida. Por isso, em relação a temas momentosos, a imprensa, acossada pelas redes sociais e pela ligação direta que estabeleceu com seus leitores, acovarda-se e, por vezes, adota o efeito manada. Noutros tempos, quando o marxismo era a religião hegemônica — na linguagem (último Muro de Berlim a cair) talvez ainda seja —, falava-se em moralismo pequeno-burguês. O debate sobre o auxílio-moradia para juízes e procuradores da República se tornou, de repente, “a” discussão do país. Guilhotinar moralmente magistrados e procuradores de reputação ilibada se tornou praticamente um esporte. Já que linchar fisicamente é crime, adotou-se o hábito de, anonimamente ou não, linchar indivíduos moralmente.

Vá lá: o auxílio-moradia, sobretudo para quem tem imóvel na cidade onde trabalha e mora, deve ser considerado — mesmo quando aceito como legal — ilegítimo. Aceitemos que o assunto merece reportagens, até de página inteira. Entretanto, como sabe qualquer editor mediano — e que não esteja contaminado pela necessidade de “sangue”, de mais “sangue” —, o jornalismo (profissão indefensável, segundo Janet Malcolm, da “New Yorker”) exige-cobra gradações. O moralismo da pauta, com reportagens puxando reportagens — não há informações novas, e sim condenações morais —, sugere que magistrados, como Marcelo Bretas e Sergio Fernando Moro, e procuradores, como Deltan Martinazzo Dallagnol, cometeram um “crime” de lesa-pátria na questão do auxílio-moradia. Como a onda é passar tudo a limpo, a faxina deve ser geral.

Argumenta-se que, no somatório geral, o custo com auxílio-moradia é alto. De fato, é. Portanto, acabemos com a suposta imoralidade. Porém, mesmo que magistrados e procuradores se expliquem — sugerindo, até, que se trata de complemento salarial (e, de fato, juízes, procuradores e policiais devem ganhar sempre bem — porque precisam lutar contra todo tipo de pressão, sobretudo as financeiras) —, que mencionam leis, quem se preocupa com isto? Eles estão “roubando” e “dilapidando” o Erário? Não.

No mundo moderno, ninguém consegue sobreviver sem cultivar ao menos uma teoria conspiratória. Então, já que é assim, apresentemos duas ou três (entranhadas, por certo) — mais teorias e menos conspiratórias.
Primeiro, por que a imprensa partiu para cima dos magistrados e procuradores que recebem auxílio-moradia mesmo morando nas mesmas cidades nas quais trabalham? Uma possibilidade: a imprensa, sempre acusada de ter contribuído para derrubar a ex-presidente Dilma Rousseff e de ter estumado procuradores e policiais federais na “caçada” ao ex-presidente Lula da Silva, precisa, agora, apresentar o contraditório, ou seja, fuzilar, metaforicamente, os acusadores. A “Folha de S. Paulo”, que adota a tese de que a função do jornalismo é apontar deslizes — a formulação é do diretor de redação, Otavio Frias Filho —, colocou seus perdigueiros para investigar juízes e procuradores. Nada contra, exceto em relação ao fato de que, no geral, seus articulistas deixam de perceber a gradação dos, digamos, “crimes” (o auxílio-moradia está se tornando um crime quase equivalente aos cometidos pelos corruptos investigados pela Lavajato). Não deixa de ser sintomático que alguns articulistas do jornal estão escrevendo o mesmo artigo, mudando, aqui e ali, apenas as palavras ou o tom do “verbidiscurso”. Repetir uma tese é uma maneira de cristalizá-la na mente das pessoas.

Segundo, é possível que jornalistas — senão todos, a maioria —, como muitos brasileiros, estão se cansando da Lava Jato, do não surgimento de fatos novos, desses explosivos que produzem manchetes que rendem milhares de acessos. Na falta de corruptos grandes, dos figurões da República, que tal investigar os menores, as figurinhas? É o que, na falta de gradação, está acontecendo. “Vamos partir para cima dos juízes e procuradores” — é o que se sugere. A ideia talvez seja sugerir que, na vida real, não há ninguém limpo. Como sugere um filósofo, “quer pureza? Não vá ao convento”. É mais ou menos o que estão dizendo repórteres, quiçá, insistamos, enfastiados.

Terceiro, depois das reportagens seriíssimas — nada pior do que a seriedade das pautas seriíssimas, adeptas da falta de gradação e de perspectiva histórica (o jornalismo, não raro apressado, às vezes se torna um “inimigo” da história e dos historiadores) —, as que levantam a bola para os debates nas redes sociais e uma infinidade de artigos, quase todos de um moralismo rastaquera, começa-se uma nova etapa. A produção, quem sabe, de um imenso chiqueiro coletivo.

Jornalistas de todo o país, com base nas informações publicadas por jornais gabaritados, escrevem artigos, supostamente isentos, defendendo a moralização da coisa pública e apontando o dedo: “Tá vendo! Magistrados e procuradores que investigaram Lula da Silva torram, agindo de maneira imoral, dinheiro público”. A conclusão: são todos iguais. De novo, não há nenhuma gradação. Quem não aplaude o discurso moralista, que prega o que é “certo”, provavelmente concorda, seria até conivente, com os “desmandos” de magistrados e procuradores.

Os artigos dos críticos seriíssimos são postados nas redes sociais e seus autores, como verdadeiros goleadores da palavra, correm para o abraço. Mas, afinal, qual a isenção desses articulistas? Sim, há gente séria (caso do meu colega Elder Dias, um jornalista decente e brilhante), com argumentos convincentes. Mas há casos de engajamento político travestido de crítica isenta. Desqualificar magistrados e procuradores é uma maneira de aliviar a pressão sobre os corruptos — e não apenas Lula da Silva (a pressão da mídia sobre os senadores Aécio Neves e José Serra, que estão numa situação delicada, é muito menor. O tucano paulista, sobretudo, é tratado com luvas de pelica)? Juízes e procuradores estão sendo “usados” — numa espécie de sintonia enigmática — por certos setores da sociedade? A imprensa planeja reforçar a ideia de que é isenta, de que pega todo mundo? Os maus intencionados, de todas as colorações ideológicas, vibram com a ideia de: “Como um procurador pode investigar alguém se recebe auxílio-moradia de maneira ilegítima?” e “Como um juiz pode condenar alguém se comete o ‘crime’ de, com o auxílio-moradia, ‘furtar’ alguns milhares de reais do Erário?”

Juízes, procuradores e policiais federais não são heróis, é claro. São pagos para trabalhar para que cidadãos, comportando-se como cidadãos, cumpram as leis e respeitem as instituições. Mas se alguém quiser colocar estátuas de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Marcelo Bretas em praças públicas, ou até mesmo na frente do Congresso Nacional, confesso que, se me pedirem, darei alguns caraminguás para a confecção das peças. Nós, brasileiros, cobramos que homens de bem administrem o país nos três poderes (Executivo, Judiciário e Legislativo). Está certo, tem de ser assim mesmo. Mas exigir perfeição total, como cobram os jacobinos da imprensa, é, mais do que inocência, uma tolice rematada. Sim, o filósofo está certo: “Quer pureza? Não vá ao convento”. Realpolitik de verdade é isto — e não a Revolução Francesa tardia e desnecessária que querem instalar no Brasil. Que tal dizer adeus aos guilhotinadores de reputações?

George Ren McEachern, ex-agente especial do FBI, diz que a Operação Lava Jato é um exemplo para o mundo

Influência internacional

Na edição da “Folha de S. Paulo” de quinta-feira, 8, o repórter Mario Cesar Carvalho entrevistou George Ren McEachern, ex-integrante do Esquadrão de Corrupção Internacio­nal do FBI. Transcrevo um trecho que comprova a importância da Operação Lava Jato: “As pessoas tiveram coragem de aprofundar e fazer algo que está mudando não só o país, mas o mundo”. O excelente jornalista assusta-se: “O mundo?”.

O ex-agente especial ratifica: “Eu realmente acredito nisso. O que ocorre no Brasil está mudando o modo como olhamos os negócios e a corrupção no mundo inteiro. Para que isso aconteça você precisa de uma explosão. Entretanto, quando a explosão ocorre você tem complexas investigações contra organizações muito espertas. E aí a explosão não basta. Você precisa de energia contínua, de estratégia. Curitiba mandou a mensagem de que o Brasil está ficando limpo”. Por que, leitor, tentar “sujar” juízes e procuradores com uma visão tacanha do mundo? l

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