Marcelo Vasconcelo – Quem defende lobos nunca elogia ovelhas

Outro dia lia algo que ironizava a expressão cidadão de bem. Era só mais um coliforme verbal dentre tantos outros que nos deparamos diariamente, não dei tanta importância. Mas, notei que outras pessoas talvez estimuladas pela sensação de poder agredir a classe de bem da sociedade, começaram a usar a mesma expressão, como se fosse uma válvula de escape para suas frustrações na defesa de cidadãos do mal.

Passei a ler com dada frequência menções desabonadoras sempre usando  cidadão de bem, de forma irônica. Ora afirmavam que pessoas, se dizentes de bem, andam por aí sendo contra ideologia de gênero, para crianças, ora diziam que os mesmos estavam pregando ódio contra pessoas criminosas, isso quando não faziam relação com pessoas desonestas por tantos outros motivos.

De certa forma, e antes de fazer qualquer comentário, decidi refletir até  que ponto aquelas afirmação estavam erradas ou certas, ao meu ver. De fato, muitos se afirmam como de bem, mas, cometem atos que testemunham de forma contrária ao seu discurso. “Sou um cidadão de bem”, quando sonega imposto; mais ainda, faz essa afirmação quando, no dia a dia, para em vaga para deficientes e sai de fininho, aí é só dizer, “é rapidinho, já eu tiro o carro!”

Retoricamente indaga-se:  se isso é cidadão de bem, qual a diferença do cidadão do mal? Talvez a diferença esteja no fato de que qualquer um pode cometer um erro desses no dia a dia, isso não é hábil a tornar alguém execrável ao ponto de ser rotulado como a escória do mundo. A diferença talvez seja o fato de que ninguém seja incorrigível ao ponto de não cometer esse tipo de falha.

O problema de quem faz essas afirmações é que não percebem diferença entre sonegar impostos, por exemplo, e de estacionar, com pressa, em lugar proibido. Na visão desfocada deles, tudo está no mesmo patamar valorativo, talvez afirmem que o crime de homicídio seja igual, em gravidade, a um xingamento que também é crime. Com isso, diferencio pessoas que erram no dia a dia, mas, corrigem-se, das pessoas que erram e não veem problema nisso. Certamente, o nível de moralidade dessas pessoas deve ser altíssimo, né?

No entanto, como gosto de analisar os causos além da aparente superficialidade que a demanda me traz, resolvo, então, analisar o perfil idealístico dessas pessoas que tanto escracham o dito cidadão do bem. Acabo me deparando com perfis de atuação bem semelhantes, quando não idênticos. Geralmente, são pessoas totalmente inclinadas à defesa do banditismo, que veem na figura do criminoso um pobre coitado à espera de um pseudo-herói que o defenda.

Bem, se ficassem somente na defesa pessoal do criminoso ou, em alguns casos, do próprio crime em si, partem para a desqualificação de uma classe de pessoas que está no outro extremo dessa vida: os cidadãos de bem.

Deste feita, caros leitores, muita gente ataca de forma generalizada pessoas que escolheram trabalhar e se dedicar a uma vida honesta. Não fazem qualquer esforço intelectual para traçar uma diferença entre pessoas desonestas que se acham de bem e as pessoas realmente honestas que são merecedoras dessa expressão.

Ao escarnecerem de quem se acha de bem, muitas pessoas, como disse, sempre comovidas com aqueles que realmente produzem o mal, acabam por construir uma forma genérica na qual todos que usam essa frese se enquadram em seu conceito pejorativo de cidadão. É uma forma de dizer “acham ruim por eu defender a classe da escória humana, mas todos vocês  são iguais”.

Deixam às claras que não fazem qualquer distinção, assim como eu fiz, de quem se diz de bem e quem realmente é de bem. Preferem repetir esse discurso como se pela mera repetição de uma idiotice as pessoas se tornassem idiotas também. Um pouco de honestidade intelectual não faz mal a ninguém, fazer distinções entre uma cosa e outra é de bom tom, entretanto, muitas pessoas preferem, tão somente, produzir em massa os coliformes verbais.

Eu indagaria a quem gosta de ironizar os ditos cidadãos de bem o que eles consideram como tal, se defendem, por outro lado, com tanto heroísmo os lobos sedentos derramadores de sangue. O estranho e, aliás, justamente o que os denuncia, é a total ausência de qualquer crítica aos cidadãos do mal, uma vez que tanto repetem seus impropérios à classe que se contrapõe a esta. Ora! Se há os cretinos que se acham de bem, onde estão os sagrados cretinos que praticam o mal? Por que esses mesmos que enchem seus pulmões para deflagrarem pedradas a uns não têm a mesma empolgação para, mesmo que minimamente, criticar outros.

Meus amigos, a resposta é bem aparente! Quem defende o banditismo não tem qualquer empatia por quem é de bem, pois o apoio a um traduz, em contrapartida, a aversão ao outro. Seria tão impossível fazer isso quanto escolher Barrabás e elogiar Jesus.

A meu ver, cidadão de bem não é e nunca será um ser perfeito, pois ninguém o é. Se dizer de bem é relutar contra todas as inclinações negativas e imorais, que nossa natureza humana nos impõe, para fazermos o que é certo. Cidadão de bem é aquele que acorda, ainda de madrugada, e sai para trabalhar por que não acha certo assaltar, ou enganar os outros, para bancar sua vida. É errar e se arrepender de ter errado, pedir desculpas ou perdão e acreditar que poderá ser melhor no dia seguinte.

Portanto, aos que tanto alvejam os cidadãos de bem, sem fazer  qualquer distinção de quem é do mal, reflitam, pois até mesmo esses, que falam tal coisa, não se enquadram no conceito que eles mesmos possam criar. Eu indagaria se essas pessoas não estão, apenas, reproduzindo aquilo que elas mesmas fazem no seu dia a dia e, por fazerem e se dizerem de bem, acabam medindo todo mundo pela sua régua ensaboada de coliformes verbais.

Sigamos, sempre, tentando ser cidadãos de bem!

Marcelo Vasconcelo

Bacharel em direito e advogado, curso extensivo em Direitos Humanitários e em Direitos Humanos sob perspectivas de Refugiados; artista plástico - autodidata - na área de pinturas e muito gosto pela leitura e escrita.
Marcelo Vasconcelo

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