Saneamento: o esgoto pode transmitir o coronavírus?

Foto de esgoto sendo despejado em corpo d'água
Foto: Thoxuan99/Pixabay.

Atento à pandemia de COVID-19 e como estudante do curso Técnico em Saneamento, me perguntei se a falta de esgotamento pode ajudar a disseminar o novo coronavírus, pois este pode sobreviver por horas ou dias em superfícies inanimadas, e imagina-se que ele também sobrevive na água, no esgoto e nas fezes de uma pessoa infectada. Sendo assim, como ficam as populações sem o serviço de esgotamento?

De acordo com um artigo de pesquisadores da universidade alemã Ruhr-Bochum, publicado no mês passado, outros coronavírus sobrevivem por horas em metais e luvas cirúrgicas, e por dias em outros materiais, como madeira e vidro. É claro, considerando que essas superfícies não sejam desinfetadas ou lavadas.

Mas e no esgoto e nas fezes? Em um resumo técnico, a Organização Mundial da Saúde cita que não há evidências da sobrevivência do novo coronavírus na água, mas supõe-se que se ele comporte do mesmo modo que outros coronavírus. O SARS-CoV, por exemplo, que causou uma pandemia de 2002 a 2003, sobrevive por 2 dias em esgotos hospitalares e em água encanada sem cloro, à temperatura de 20ºC. Em temperaturas menores, ele pode sobreviver muito mais tempo. Essa descoberta foi feita por pesquisadores chineses em um artigo científico de 2005.

Portanto, faz sentido pensar que haverá mais casos de COVID-19 em locais sem esgotamento sanitário, onde a população bebe água contaminada por esgoto ou tem contato direto (encosta) no esgoto, o que ainda é comum no Brasil.

Na região Norte, apenas 10,5% da população tem acesso a coleta de esgoto, conforme os dados de 2018 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). No país todo, quase 100 milhões de brasileiros, quase a metade da população não tem acesso a esse serviço fundamental.

Mapa com informações sobre o acesso à coleta de esgoto no Brasil.
Fonte: SNIS, 2018.

Além disso, 42,9% da população do Norte não é atendida por abastecimento de água; não tem acesso a água própria para o consumo ou encanada, o que dificulta e impede o simples de ato de lavar as mãos, essencial para combater o coronavírus.

Mapa com informações sobre o acesso à coleta de água no Brasil.
Fonte: SNIS, 2018.

Por e-mail, questionei a doutora Emily Landon, especialista em doenças infecciosas, da Universidade de Chicago, Estados Unidos. Perguntei a ele se através do contato físico frequente com esgoto doméstico a céu aberto, há um risco alto de infecção pelo coronavírus.

“No momento, não estou ciente de quaisquer casos de COVID-19 diretamente relacionadas ao contato com esgoto doméstico a céu aberto, no entanto, nós sabemos que há vírus vivo que pode ser recuperado das fezes. A menos que o esgoto seja aerossolizado por causa da vibração ou disrupção, o vírus provavelmente não será liberado no ar. Todavia, eu encorajaria todos a evitar o contato físico com o esgoto a céu aberto e a lavar suas mãos após isso, se tal contato for inevitável”, disse a especialista.

A aerossolização, citada acima, é quando uma partícula sólida fica suspensa no ar, neste caso, quando gotas de água “ficam flutuando”.

A mesma pergunta também foi feita, por e-mail, à Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e ao Instituto Emília Ribas, mas até o horário de publicação desta matéria, não obtive resposta. Esta matéria será atualizada após o recebimento da resposta.

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