Após repercussão, Doria volta atrás e nega distribuição de ração para pobres

Após a repercussão negativa do programa de distribuição de alimentos reprocessados para a população pobre, lançado pelo prefeito João Doria Jr (PSDB), a Prefeitura de São Paulo voltou atrás e disse nesta segunda-feira (16) que não há nenhuma parceria firmada e que ainda não sabe se distribuirá o produto feito de alimentos próximos do prazo de validade.

O programa Alimento para Todos foi lançado em um vídeo nas redes sociais publicado pelo prefeito na semana passada, e anunciado na página da Secretaria de Direitos Humanos.

Segundo o texto, o programa faria a distribuição de um composto, feito com base em alimentos que não seriam vendidos, para populações com carências nutricionais. A distribuição seria feita a partir de uma parceria com a empresa Plataforma Sinergia.

Em um vídeo publicado em seu perfil pessoal, Doria mostrou o biscoito feito com o composto e afirmou que ele seria distribuído pela Prefeitura já a partir de outubro.

“Esse é o alimento para todos. Aqui, você tem alimentos que estariam sendo jogados no lixo e que são reaproveitados, com toda a segurança alimentar. São liofilizados e transformados em um alimento completo: em proteínas, vitaminas e sais minerais. E a partir deste mês de outubro, começa a sua distribuição gradual, por várias entidades do terceiro setor. Igrejas, templos, a sociedade civil organizada, além da Prefeitura de São Paulo, para oferecer às pessoas que têm fome. Em São Paulo inicialmente, e depois em todo o Brasil”, afirma na mensagem o tucano.

Ração para pobre” ou “comida de astronauta”?

O anúncio do programa gerou críticas nas redes sociais, onde o alimento foi chamado de “ração para pobre”.

O Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região (que engloba São Paulo) manifestou posição contrária à proposta, entendendo que ela “contraria os princípios do Direito Humano à Alimentação Adequada”. Em entrevista ao UOL, Fabiana Poltronieri, representante do Conselho, disse que a entidade não foi consultada na elaboração do programa e que não foram fornecidas informações técnicas e nutricionais sobre o composto pela Prefeitura e pela empresa fabricante.

“Vivemos em um momento em que o Brasil deixou o mapa da fome da ONU [Organização das Nações Unidas], apesar de correr o risco de voltar. Não há fome e miséria aguda. Hoje o problema é a obesidade, relacionada a doenças crônicas”, disse Poltronieri, explicando o posicionamento do CRN3. Segundo ela, o Conselho entende que todas as pessoas devem ter acesso a alimentos frescos e de qualidade.

Diante das críticas, o prefeito afirmou, durante viagem a Milão na semana passada, que elas eram fruto de “total falta de conhecimento”. “O Brasil tem de colocar ideologia e partidarismo nas coisas. Aquilo foi desenvolvido por cientistas. É um trabalho de anos. Foi submetido à Prefeitura com todo o respaldo de cientistas. O alimento liofilizado dura anos. É o mesmo que os astronautas consomem em missões espaciais. É bom. Eu experimentei. Tem vários sabores”, disse Doria na ocasião.

Prefeitura volta atrás: não sabe mais se distribuirá o reprocessado

Nesta segunda-feira (8), em entrevista, a secretária de Direitos Humanos, Eloísa Arruda, afirmou que nenhuma parceria com a Plataforma Sinergia foi firmada e que a Prefeitura não sabe se irá receber e distribuir o produto. Ela explicou que o programa Alimento para Todos, lançado por João Doria, ainda não possui plano concreto, e que estão sendo realizados estudos sobre possíveis projetos.

“Não está certo que irá ocorrer [a distribuição do reprocessado]. Poderá ocorrer. E se ocorrer na cidade de São Paulo, será como complemento dos alimentos in natura e para uma população identificada como de alta carência nutricional” disse a secretária. “Na verdade, no dia do lançamento da política municipal, a Plataforma Sinergia foi apresentada pelo prefeito como um exemplo de boa prática. Não houve assinatura de convênio ou nada disso”, completou.

No dia do lançamento, Doria sancionou a lei que cria a Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos, fruto de um projeto do vereador Gilberto Natalini (PV), que foi secretário do Verde de Doria, mas saiu após desentendimentos com a gestão do tucano. De acordo com Arruda, a nova lei dá respaldo jurídico para o programa Alimento para Todos.

A secretária também explica que a Prefeitura ainda iniciará um “plano de ação para verificar o potencial de desperdício de alimentos na cidade de São Paulo, que nós sabemos que é muito grande” e que identificará “a dimensão das carências da cidade de São Paulo”.

Ela disse que o programa poderá incluir a ampliação do banco de alimentos do município, o cadastro de boas práticas, processamento e beneficiamento de alimentos e programas de conscientização sobre o desperdício. Também afirmou que a Prefeitura não substituirá alimentos in natura por reprocessado em nenhum de seus equipamentos.

Informação sobre parceria desapareceu de site

Um texto com data do dia 9 de outubro publicado na página da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura trazia a seguinte informação: “Com o objetivo de combater o desperdício de alimentos, foi lançado neste domingo (8) no auditório do Ibirapuera o projeto Alimento para Todos, uma parceria entre a Prefeitura de São Paulo e a Plataforma Sinergia”, no início do texto. E “a parceria entre a Prefeitura e a Plataforma Sinergia prevê a destinação de todos os tipos de alimentos de boa qualidade e dentro do vencimento para a produção do ‘Allimento’, que será entregue às populações com carências nutricionais no município”, ao final.

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